NPLAN
    Schedule
    Claude
    Opus 5.5
    IA

    Um LLM consegue sequenciar uma fábrica real?

    Alexandre Erhart
    2 de outubro de 2026
    14 min de leitura

    Com a evolução dos LLMs, uma pergunta aparece em quase toda conversa sobre planejamento: se o modelo já raciocina, ele ainda precisa de um motor de cálculo? Para sequenciamento de produção, decidimos testar em vez de opinar.

    Entregamos a um LLM de fronteira os dados de uma fábrica real, com cerca de 4.500 ordens, e pedimos a programação completa, sem escrever código. Depois comparamos o plano dele com o do nPlan.

    Resposta curta

    Consegue fazer um plano válido. Não fez o melhor plano, e gastou um tempo e um custo que uma operação não tem para gastar.

    O plano do LLM não quebrou nenhuma regra e chegou a ser melhor que as primeiras configurações do nPlan. O nPlan otimizado passou à frente: 27% menos setup, com o mesmo OTIF e praticamente o mesmo atraso, em 61 segundos contra 76 minutos.

    Um LLM consegue fazer as contas de um sequenciamento. A questão é se deveria.

    O lugar do LLM no planejamento não é fazendo as contas. É entendendo o que o planejador quer e chamando o motor que calcula.

    O comparativo: melhor LLM contra nPlan otimizado

    O nPlan otimizado fez 136 horas a menos de setup, com o mesmo OTIF medido no teste.

    DimensãoCLAUDEOpus 5.5 (LLM puro)NPLANSchedule (sem LLM)
    Qualidade do plano
    Regras quebradasNenhumaNenhuma
    Setup total501 h365 h (−27%)
    Trocas de setup3.4382.806 (−18%)
    Entrega
    Ordens no prazo98,4%98,4%
    Execução
    Tempo para gerar o plano76 min61 s
    Custo por execução¹cerca de US$ 25sem custo por execução
    Mesmo plano a cada execuçãoNãoSim

    Resultados deste teste · fábrica inteira, cerca de 4.500 ordens. ¹ O custo do LLM é estimado; a plataforma nPlan é paga por assinatura.

    Por que 4.500 ordens e por que este modelo

    Escolhemos uma base de 4.500 ordens porque é grande o bastante para expor as diferenças e pequena o bastante para testar com rigor.

    Começamos por um teste básico, com um horizonte de apenas 120 ordens. Era simples e rápido, mas fácil demais: não deixava ver com clareza as diferenças, os desafios e o potencial de cada abordagem.

    No outro extremo estão bases equivalentes às operações de grandes clientes, com 50 ou 100 mil ordens de produção. Com 4.500 ordens, o modelo já ocupou mais de 90% de sua janela de contexto; uma base dessa escala não caberia no mesmo formato. O tempo e o custo também cresceriam.

    As 4.500 ordens ficam entre os dois. É o tamanho de um cliente real, ainda que não dos maiores, com um tipo de complexidade que se encontra em fábricas de verdade.

    O modelo foi o Claude Opus 5.5, no esforço máximo. Este é um primeiro estudo, não a palavra final sobre o tema, e o Opus 5.5 combina alta capacidade com eficiência.

    Modelos menores não faziam sentido: o objetivo era testar a fronteira do que um LLM consegue fazer.

    A base: justa, mas não a mais difícil

    A base tem as restrições que tornam o sequenciamento difícil na prática e deixa de fora outras que o tornariam muito mais difícil. Os dados são de um cliente real, anonimizados: sem nomes, códigos ou produtos, com tamanhos arredondados e datas deslocadas.

    O que a modelagem considera
    O que a modelagem não considera
    Setup dependente da sequência, uma troca longa quando muda o molde e uma curta quando muda a cor
    Ordens com várias operações e precedência entre etapas
    Moldes de cópia única, disputados por várias máquinas: um molde não pode estar em duas máquinas ao mesmo tempo
    Restrição de matéria-prima
    Calendário com pausas na troca de turno e parada no fim de semana
    Restrição de mão de obra e de operador
    Prazo de entrega por ordem
    Diferenças entre máquinas: calendário, eficiência e tempo de processo são iguais em todas

    Os dados desta fábrica também ajudam. Sobra máquina: a carga total ocupa pouco mais de um terço de uma semana, e o gargalo são os moldes. Quase todos os moldes atendem um só grupo de máquinas, e 9 em cada 10 ordens vencem mais de uma semana depois do fim do plano.

    Com várias operações por ordem, restrição de material ou de operador, o problema seria bem mais difícil. É o que se encontra em muitas fábricas reais.

    Como foi o teste

    Os dois lados receberam o mesmo problema e o mesmo objetivo. A diferença estava no método: o LLM teve de resolver tudo por inferência, sem escrever código.

    O LLM recebeu uma instrução com o cenário da fábrica e todas as restrições que o plano precisava respeitar. A instrução proibia gerar código: o modelo deveria raciocinar e escrever o plano diretamente, sem criar nenhum programa para executar. O registro da execução confirma que ele seguiu essa regra.

    Ele devolveu, para cada ordem, a máquina, o molde e os horários de setup, início e fim, numa única tentativa.

    O objetivo foi o mesmo para os dois, nesta ordem: programar todas as ordens sem quebrar regra, ter o menor atraso total e, por último, o menor setup total.

    O nPlan avança de evento em evento: quando uma máquina fica livre, escolhe a próxima ordem pelos critérios configurados e confere a escolha contra todas as restrições antes de gravá-la. Por isso é rápido e devolve sempre o mesmo plano para os mesmos dados. Rodamos o nPlan em quatro configurações. Na última, um algoritmo otimiza automaticamente os parâmetros da regra de sequenciamento.

    Os três planos abaixo cobrem a mesma janela e as mesmas máquinas. Cada cor é uma família de produto, e cada troca de cor é um setup longo.

    Gantt do sequenciamento sem otimização
    Sequenciamento para frente, sem otimização: as famílias se misturam em quase todas as máquinas.

    O juiz: os dois planos são executáveis

    Os dois planos passaram em todas as verificações: zero regras quebradas, em todas as ordens.

    Um plano com pouco setup não vale nada se não puder ser executado.

    Por isso, antes de comparar qualquer resultado, carregamos o plano do LLM no Gantt do nPlan e rodamos a mesma checagem aplicada ao plano do motor, ordem a ordem, com tolerância de meio minuto. Ela confere que:

    • nenhum molde está em duas máquinas ao mesmo tempo;
    • nenhuma ordem roda com a fábrica parada, na troca de turno ou no fim de semana;
    • cada ordem tem a duração correta;
    • cada setup tem o tempo certo para a sequência, conforme muda a família ou só o atributo;
    • nenhuma ordem começa antes da data mais cedo permitida.

    Antes, testamos o próprio juiz: ele aprova o plano do motor e aponta três erros plantados de propósito. Um segundo verificador, escrito só a partir do texto do problema e sem nenhum código do motor, refez todas as contas e chegou ao mesmo veredito.

    Resultado: menos setup, mesmo atraso

    Com os dois planos válidos, a diferença ficou no setup: 365 horas no nPlan otimizado, contra 501 no LLM.

    São 136 horas de máquina a menos em troca, em pouco mais de dez dias de plano. O nPlan chegou lá com 632 trocas a menos, agrupando melhor as ordens de cada família.

    O OTIF medido foi de 98,4% em ambos os planos.

    Fazer um plano válido não é o mesmo que fazer o melhor plano.

    Como o nPlan passou à frente

    O LLM venceu as três primeiras etapas de configuração do nPlan. Só a configuração com otimização automática dos parâmetros da regra de sequenciamento passou à frente.

    A primeira etapa é um sequenciamento para frente, sem otimização: o motor pega a próxima ordem que pode rodar, sem olhar o setup. As duas seguintes são etapas intermediárias, que passam a priorizar o menor setup e a olhar mais longe no horizonte. Na configuração final, um algoritmo otimiza automaticamente os parâmetros da regra de sequenciamento do nPlan para reduzir o setup.

    Comparando os planos máquina a máquina, o motivo apareceu. Nas etapas intermediárias, o nPlan trocava de família a toda hora e deixava máquinas paradas à espera de moldes em uso em outras máquinas. O LLM fazia o contrário: deixava cada molde numa máquina e agrupava as ordens por família.

    A otimização automática dos parâmetros dessa regra resolveu isso. O nPlan otimizado deixou 98% dos moldes numa única máquina, contra 90% no plano do LLM e 79% na etapa anterior.

    Por que o LLM foi bem

    O LLM foi bem porque encontrou uma forma de quebrar o problema: com máquina sobrando, prendeu cada molde numa só máquina.

    Assim o molde nunca precisa estar em dois lugares ao mesmo tempo, e a regra mais difícil, a que cruza máquinas, vira uma questão de sequência dentro de cada máquina. Depois bastou ordenar as ordens de cada máquina por família. A estratégia funciona porque esta base tem as simplificações descritas acima.

    Ao entregar, o próprio modelo descreveu o que fez:

    “Programei cada ordem à mão. Cada ferramenta fica numa máquina escolhida do seu grupo (ou só muda depois que o uso anterior terminou); as ordens foram postas uma atrás da outra na primeira janela de trabalho e ordenadas por atributo para cortar setups, e as poucas ordens com prazo urgente foram colocadas primeiro nas suas máquinas […]”

    Claude Opus 5.5, ao entregar o plano

    Tempo e custo: o que muda na operação

    A diferença entre 61 segundos e 76 minutos não é só de velocidade. É a diferença entre gerar um plano e conseguir simular.

    Sequenciamento não se roda uma vez por mês. Uma máquina para, um pedido muda, um fornecedor atrasa, e o plano precisa ser refeito, às vezes mais de uma vez por dia.

    Em um minuto, o planejador testa hipóteses: liga um terceiro turno e vê o efeito, muda um parâmetro e compara. Em 76 minutos, cada pergunta vira uma espera, e a maior parte delas deixa de ser feita.

    Um plano que leva 76 minutos não é simulação. É espera.

    Uma conta simples, com os números deste teste:

    CenárioClaude Opus 5.5nPlan
    Simular 10 cenários · tempo acumulado12,7 h10 min
    Simular 10 cenários · custo por execuçãoUS$ 250sem custo por execução
    Replanejar 3 vezes por dia, por 22 dias úteis · tempo acumulado83,6 h67 min
    Replanejar 3 vezes por dia, por 22 dias úteis · custo por execuçãoUS$ 1.650sem custo por execução

    Conta ilustrativa com os tempos deste teste e o custo estimado do LLM.

    O custo do LLM é uma estimativa pela API, a preço de tabela: cerca de US$ 25 por execução. O registro mostra um piso de US$ 12, mas não traz todo o texto que o modelo gerou para raciocinar. No nPlan, cada execução é “grátis”: paga-se a plataforma, não cada vez que se aperta o botão.

    Há também a repetição. Para medir o efeito de um terceiro turno, o plano precisa mudar só por causa dele. O motor devolve o mesmo plano para os mesmos dados; se o plano do LLM mudar a cada execução, não há como saber se a diferença veio do turno ou do modelo.

    E há o tamanho. Com 4.500 ordens, o modelo terminou ocupando cerca de 903 mil tokens, 90% do seu limite de contexto. Bases equivalentes a operações de grandes clientes, com 50 a 100 mil ordens, não caberiam do mesmo jeito.

    Limites deste teste

    Este é um primeiro estudo, com um único modelo, uma única fábrica e um único tamanho de problema. Ele vai amadurecer com o tempo, com novos modelos, bases maiores e restrições mais complexas. Para ler os resultados, vale ter em mente:

    • O nPlan teve quatro configurações, e a final foi definida depois de vermos o plano do LLM. O LLM teve uma tentativa, sem retorno sobre o plano; com uma segunda, talvez melhorasse.
    • Nós preparamos o problema: convertemos os dados em texto, explicamos as regras e anonimizamos tudo. O LLM não leu o banco de dados nem descobriu as regras sozinho.
    • É um plano estático, sem quebras de máquina, eventos ou replanejamento.
    • O custo do LLM é uma estimativa a preço de tabela da API.
    • A versão do LLM que escreve e executa código ficou de fora. Num teste anterior, com problemas sintéticos, ela venceu o motor. Quando escreve código, o LLM deixa de fazer as contas à mão e passa a construir um motor: a pergunta vira se esse motor deve ser reescrito a cada execução ou testado e mantido.

    Quer ver o mesmo teste com os dados da sua fábrica? Estamos abertos a provas de conceito com empresas interessadas. Fale com a gente.

    Então, consegue?

    Consegue fazer um plano válido para uma fábrica real, sozinho e sem código. Só isso já é um resultado interessante.

    Mas o nPlan otimizado não foi só melhor. Fez 27% menos setup com o mesmo atraso, em um minuto em vez de 76, sem custo a cada execução e sempre com o mesmo resultado. E esta fábrica ainda é mais simples do que muitas outras.

    Por isso, a arquitetura que faz sentido não é o LLM no lugar do motor. É o LLM na frente do motor: ele interpreta o que o planejador quer, chama o motor como ferramenta e explica o resultado.

    Na prática, o planejador pergunta o que acontece se abrir um terceiro turno na semana que vem. O LLM ajusta o calendário, roda o nPlan, compara os dois cenários e responde em linguagem natural, em minutos. O próprio teste mostrou esse papel: foi comparando o plano do LLM com o do motor que encontramos a configuração final.

    O LLM não precisa fazer as contas sozinho. Com um motor para chamar, ele planeja de forma mais rápida, barata, auditável e confiável.

    Testes mais elaborados vêm a seguir: bases maiores, ordens com várias etapas, restrição de material e de operador, replanejamento com eventos. Este primeiro estudo já mostra o essencial: é na combinação com o motor que o LLM rende mais no sequenciamento.